Os Quatro amores de C.S Lewis e suas representações no universo de Tolkien

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INTRODUÇÃO

O autor C.S. Lewis, no livro Os Quatro Amores, expressa que o amor pode ser comunicado de quatro maneiras: Afeição, a forma mais básica de amar; Amizade, considerada a mais rara; Eros, o amor apaixonado; e Caridade, o maior e menos egoísta deles. No entanto para este artigo, utilizei como parâmetro os subtipos que compões em quatro amores citados acima, sendo trabalhados no decorrer da obra, portanto os amores utilizados como parâmetro foram: Amor-Dádiva, Amor-Natureza, Amor-Apreciativo e Amor necessidade, não sendo utilizados para análise outros tipos de amores citados, como por exemplo, amor-pátria.

-Amor Dádiva

Ilustrador:Dakkun39

Segundo C.S Lewis no livro os quatro amores, o amor-doação é o que deseja de modo genuíno proporcionar ao outro um conforto, proteção, portanto um exemplo típico do “amor-Dádiva seria aquele que move o homem a trabalhar, planejar e guardar dinheiro para o futuro bem-estar de sua família, que ele morrerá sem ver ou desfrutar” (LEWIS,2017, p.11), através dessa citação pode-se pensar em dois momentos em que no livro Os Filhos de Húrin em que é demonstrado o amor- dádiva, o primeiro acontece quando Húrin Senhor de Dor-lómin é convocado para se juntar a 5° batalha Nirnaeth Arnoediad, despediu-se de sua esposa Morwen e disse:

“— Adeus, Senhora de Dor-lómin; agora cavalgamos com maior esperança que já conhecemos. Vamos acreditar que nesse solstício de inverno o banquete há de ser mais alegre do que em todos os nossos anos até agora e seguindo por uma primavera sem temor!
Então ergueu Túrin no ombro e exclamou para seus homens:— Que o herdeiro da Casa de Hador veja a luz das vossas espadas! — E o sol reluziu em cinquenta lâminas que se ergueram para o alto…” (TOLKIEN,2009,p. 54)

Em tal trecho fica claro o amor doação de Húrin que durante anos cuidou da região de Dor-lómin e de sua família; seu filho Turin e sua esposa Morwen que estava grávida. Quando este, indo para guerra exercendo, portanto seu trabalho e, desejando voltar vitorioso para o banquete, podendo assim ver o nascimento de sua filha, ver e sua família e seu povo ter uma vida sem medo de serem escravizados por Morgoth, se assim saíssem vitoriosos. No entanto, Húrin é capturado e amaldiçoado por Morgoth, e forçado a assistir tudo que acontecia em suas terras, sem poder partilhar de experiências com sua família, comprovando assim que o amor de Húrin por sua esposa e filho é um amor de dádiva.

O Segundo momento da obra em que aparece amor de dádiva acontece quando Morwen sem receber notícias do seu marido Húrin, a medida que o tempo passava, se entristecia por seu filho Túrin, Herdeiro de Dor-Lómin e Ladros, pois percebia que ele acabaria se tornando escravo dos homens lestenses caso continuasse naquela região:

“Então Lembrou-se de sua conversa com Húrin e outra vez seus pensamentos se voltaram para Doriath. Por fim,resolveu mandar Túrin embora em segredo, se pudesse rogar ao rei Thingol que lhe desse refúgio.[…] Mas, o nascimento do bebê se aproximava e o caminho seria duro e perigoso, quanto mais pessoas fossem,menor seriam as chances de escapar.” (TOLKIEN,2009 ,p. 75)

Morwen mãe de Túrin, diante da ameaça de escravidão para seu filho, ela o envia para Doriath, e ao fazê-lo segundo Lewis, Morwen exerce “o amor-Dádiva aspira dar a felicidade,conforto, proteção e, se possível riqueza” (LEWIS,2017, p.32), mesmo sabendo que talvez jamais tornaria a vê-lo, o amor-dádiva pode ser percebido, ao qual os pais fazendo de tudo para que seus filhos tenham um futuro melhor, mesmo que para isso tenham não possam aproveitar do mesmo, nem estar próximos destes.

-Amor da Natureza

“Para algumas pessoas, talvez de forma especial para os ingleses e os russos, aquilo que denominamos  de “amor pela natureza” é um sentimento permanente e sério.” (LEWIS, 2017,P.32) .Tal amor pode ser observado no livro Silmarillion na Valar Yavana, a provedora de frutos:

“Ela ama todas as coisas que crescem sobre a terra e guarda na mente todas as suas incontáveis formas, das árvores semelhantes a torres nas florestas primitivas, ao musgo sobre as pedras, aos seres pequenos e secretos que vivem no solo.”(TOLKIEN, 2011, p.18)

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Autora:Yavanna by Janka Lateckov 


Yavana seria a representação viva do Amor-Natureza pois a mesma é a criadora da natureza na terra-média, e também apresenta uma profunda preocupação pela destruição de suas criações, tanto com as destruições que Melkor realizava como pela vinda dos anões criações de Aulë, o mesmo se aplica aos Filhos de Ilúvatar. (TOLKIEN, 2011)







Outro ser que demonstra o amor-natureza, é o Maiar Radagast, o quarto Instari, enviado pelos Valar. Segundo o livro Contos Inacabados:

[…]Radagast o quarto apaixonou-se pelos muitos animais e aves que viviam na terra-média, e abandonou os elfos e os homens para passar seus dias entre as criaturas selvagens. Assim obteve seu nome (que é do idioma de númenor, e significa, dizem, “o que cuida dos animais”. (TOLKIEN, 2009, p. 428)

Nesse sentido Radagast representa o que C.S Lewis descreve os amantes da natureza que estão atrás dela em busca de representar a beleza em uma quadro, buscar uma teoria, uma explicação de algo na natureza, não encontrará nada mais as inspirações que o indivíduo estava tendido a perceber. Lewis fala que:

“as nuances” e os  “espíritos” da natureza eles não apontarão, nenhuma moral. Exuberância avassaladora, majestade intolerável e desolação sombria são arremessadas em sua direção. Faa disso o que puder,se puder fazê-lo. O único imperativo que a natureza pronúncia é “Veja. Ouça. Envolva-se. : “Olhe. Ouça. Atenda.” (LEWIS,2017,p.35 )

Portanto Radagast enquanto Maiar de Yavana estava voltado para sentir e observar a natureza, tanto é que o mesmo abandona sua missão para passar os dias entre os animais e conviver com eles, sem procurar moldá-los e sim, como Lewis fala de olhar e ouvi-los e acredito eu que de algum modo Radagast atenda de a natureza que ele encontrou.

-Amor apreciativo

“O amor apreciativo contempla e prende a respiração, fica em silêncio e se rejubila de que tal maravilha possa existir, mesmo que não seja para ele; não ficará inteiramente deprimido se a perder, pois prefere isso a jamais tê-la visto.”(LEWIS,2017, p.16). O amor apreciativo pode ser representado na obra de Tolkien, através do casal Námo e Vairë, sendo estes descritos no segundo capítulo de Quenta Silmarillion. O valar Námo é um dos irmãos fënturi, Senhores dos espíritos, mora em Mandos e é o guardião da casa dos mortos, ele pode ser considerado uma das representações do amor apreciativo, pois:

“Nunca se esquece de nada e conhece todas as coisas que estão por vir, à exceção daquelas que ainda se encontram no Ábitrio de Ilúvatar. Ele é o oráculo dos Valar; mas pronuncia seus presságios e suas sentenças apenas em obediência a Manwë.” (TOLKIEN, 2011, p.19).  

A outra representação do amor apreciativo é a Valier Vairë, a tecelã, esposa de Námo que também reside em Mandos a Oeste de Valinor, ela:“ tece em suas telas, repletas de histórias, todas as coisas que um dia existiram no Tempo; e as moradas de Mandos que sempre se ampliam com o passar das eras estão revestidas dessas telas.”(TOLKIEN, 2011, p.19).

Tanto Námo, quanto Vairë são como deuses de menor poder, se comparado a Eru o único, e na Terra-média, possuem o papel de Deuses de Amor apreciativo, ambos contribuíram com a música para criação de Eä e continuam exercendo seus respectivos papéis, no qual Lewis coloca que o amor apreciativo, é como o criador que observa o livre arbítrio de suas criações, sem interferir, o que pode ser percebido que Námo mesmo sabendo enquanto oráculo o que virá a acontecer, não interfere. Assim também Vanä enquanto uma tecelã/historiadora que sabe de todas as coisas que um dia existiram no Tempo, não interfere para alterar a história. 

Amor Necessidade

De acordo com Lewis:

nosso amor-Necessidade, como viu  Platão, é “filho da pobreza”. Em nossa conscientização ,é o reflexo exato da própria real natureza. Nascemos desamparados. Logo que estamos totalmente consciente descobrimos a solidão. Precisamos dos outros física, emocional e intelectualmente[…]”(LEWIS p.12). 

Eärendil the Mariner by Jenny Dolfen

O amor necessidade pode ser percebido na obra de Tolkien através da figura do meio-elfo Eärendil, que após a fuga da cidade de Gondolin, se tornou senhor do povo que habitava nas Fozes do Sirion e tomou como esposa Elwing que possuía uma das Silmarills, o que despertou o interesse e gerou o ataque dos filhos de Fëanor (Maedhros e Maglor), aos remanescentes de Gondolin(TOLKIEN, 2011), para, além disso, os remanescentes de Gondolin, ainda eram procurados por Melkor,dessa maneira Eärendil passa por diversas atribulações que demonstram sua pobreza, fazendo o mesmo procurar chegar a Valinor incansavelmente, tendo necessidade de conhecer algo maior, o que pode ser comprovado no trecho abaixo do livro Silmarillion:

“[…]E Eärendil entrou em Valinor, foi os palácios de Valimar e nunca mais pôs os pés nas terras do homens. Então os Valar se reuniam em Conselho e convocaram Ulmo das profundezas do mar. E Eäreandil se apresentou diante deles e cumpriu sua missão em nome das duas famílias. Perdão pediu ele para os Noldor e compaixão por seu enorme sofrimento; pediu também piedade para homens e elfos e auxílio em sua necessidade.E sua súplica foi acolhida.” (TOLKIEN, 2011, p.317)

Segundo Lewis , o amor por Deus está em todos os seres e com freqüência é representado através do amor-necessidade, como por exemplo quando pedimos perdão de nossos pecados ou apoio nas dificuldades da vida(LEWIS,2017). Na obra de Tolkien os Valar são os poderes do mundo, participando de sua criação junto com Eru, de tal modo podem ser considerado Deuses, fazendo-se um paralelo com o que Lewis fala, quando Earendil pede perdão e compaixão  pelos homens e elfos que habitam na terra-média.

Referência:

LEWIS, C.S. Os quatro amores, 1°ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

TOLKIEN, J.R.R. Contos inacabados:de númenor e da terra média, 2° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009

TOLKIEN, J. R. R., O Silmarillion; organizado por Christopher Tolkien. 5° ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

TOLKIEN, J.R.R. Os Filhos de Húrin, 1° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

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Autor: Patrick Queiros
Patrick Jorge Araújo de Queiros – Salvador-Ba


Thain da Toca-Ba, editor das páginas: Conselho Branco Sociedade Tolkien, Imladris Toca-Sp, Toca-Es. Escritor por diversão, interessado em debater e interpretar a obra de Tolkien.