Tolkien e Elomar: O Mago Britânico e o Menestrel Sertanez

É coisa sabida se apontar a obra do Professor J. R. R. Tolkien como concernente a diversas críticas à modernidade. Ao se averiguar que os grandes objetos mágicos de seu Mundo Secundário, a Terra-média, são rechaçados pela sabedoria ou moral de seus marcantes personagens, a lista de tragédias e perigos que sua literatura apresenta nos traz bem mais que uma lição admonitória: As Silmarils, os Anéis de Poder, os Palantíri, cada um dos objetos mágicos que extrapola as leis naturais do mundo imaginário do célebre filólogo, parecem, mesmo que calcadas “numa boa intenção”, acabar por trazer o mal. E, em última instância, a perda total do próprio livre-arbítrio dos qual tais construtos nos pareciam ser os principais expoentes.

Para o analista junguiano Robert A. Johnson , autor de “He: A chave do entendimento da psicologia masculina”:  “Os primeiros mitos, frequentemente, versam sobre a descoberta do poder que emerge da terra e vai para mãos humanas. Os mais recentes, falam da volta do poder à terra, às mãos de Deus, antes que nos destruamos com ele.”

Ou seja, o fogo de Prometeu, de súbito, começa a nos queimar os dedos. É preciso devolvê-lo ao Olimpo, negá-lo em essência e retornar a humanidade a um estado de pureza pré-prometeica.  Parece ser isso que os mitos mais jovens nos apontam. Teremos usado o fogo dos deuses erradamente? O que saiu errado?

Elomar Figueira Mello, compositor e poeta Bahiano, nunca leu Tolkien, porém, concorda plenamente com essa assertiva. Criado no interior de seu estado, tal como o escritor de “O Hobbit”, Elomar teve uma infância cheia de recortes que culminaram em ecos que ressoam na sua produção criativa. Não lutou em uma guerra mundial, mas viu, dia após dia, o espírito humano prevalecer sob o conflito entre a vida e a morte no Semi-árido Nordestino. Sendo responsável por uma discografia com cerca de
17 discos, além de óperas, antífonas e sinfonias, é graduado em Arquitetura. Mantém a prática do violão autodidata, bem como a composição, que flerta entre o erudito e o popular. Alimentando ambos com uma profunda dedicação ao universo a que cunhou a expressão “Sertanez”, evitando a expressão “Sertanejo”, a fim de se afastar do caráter midiático que a palavra tomou nos últimos anos.

Evitar a mídia, por sinal, é ponto passivo no caráter do músico. Basta usarmos como exemplo a descrição presente no encarte de seu disco “Nas quadradas das águas perdidas”, redigida por Tania Pacheco: “Elomar é uma estranha mistura. ‘Prumodi’ compreendê-lo, é preciso viajar 500 e poucos quilômetros, de Salvador até Vitória da Conquista; embrenhar-se com ele numa estradinha de 102 quilômetros, que se percorre de carro, e quatro horas; e, depois andar, mais quilômetro e meio a pé, atravessando na areia seca os dois braços do (Rio) Gavião, vendo os corpos dos cabritinhos mortos ao sol. Tudo isso faz parte do aprendizado. Tudo isso – apenas isso!
– Explica o homem inquieto, cercado de morte, empenhado em cantar a vida eterna”.

Para melhor compreendermos a que a autora se refere quando cita “vida eterna”, cabe aqui mais um excerto de um disco do artista:

“Na tradição catingueira, como também entre todos os despossuídos, há uma crença de que Deus está mais presente na necessidade e na precisão, por isso seu reencontro mais provável será nas terras quebradas da natureza.”, nos diz o historiador Ernani Maurílio, no encarte do LP “Auto da Catingueira”, um dos álbuns centrais da obra Elomariana.

Logo, se nos é possível responder como regressar àquele estado de unidade que abandonamos aonos apoderardas qualidades divinas que tanto cobiçávamos, surgiria aí uma possibilidade de estabelecer o tão esperado retorno através da natureza? O estado de inocência, perdido pela civilização,estaria mediado em se submeter ao mundo dos sentidos, não em se dominar o mundo dos objetos?

Nessa encruzilhada, no entanto, tal utopia há muito fora perdida. Não são exatamente os “primeiros mitos”, citados acima, aqueles que pregam que o poder emergiu da terra até as mãos do homem? Não é possível de se pedir a toda uma civilização que lance seu anel de poder de volta ao fogo que onde foi feito. Nessedilema em que vivemos, portanto, tão diferente do modo de vida que tanto Elomar quanto Tolkien aspiraram em seus anos de formação, resta-nos o “escape”. E esse primeiro parece aplicá-lo, assim como autor britânico, em direção aoutromundo, onde há uma “suspensão de descrença”, que nos permite dar crédito àquilo que não é:

“Eu comecei a sentir que era muito ‘apertado’ o Sertão físico para conter os personagens, minhas histórias, minhas canções.”, diz ele em entrevista para a autora Simone Guerreiro, no livro “Tramas do Sagrado”. Tão apertado ele sentiu esse Sertão, que inventou mais um, ao qual cunhou o nome “Sertão Profundo”, espécie de Terra-média nordestina que o músico baiano diz não ter criado, mas vislumbrado e divulgado, assim como Tolkien, na sua posição de pretenso tradutor do Livro Vermelho. Nosso menestrel prossegue dizendo:

“Esse (é um) sertão imaginário onde pudessem viver esses meus personagens, e eles correrem soltos. Pra não ficar preso à ordem vigente, política, econômica, social, eu vou pegar um sertão lá longe, que deve ter havido, digamos assim, nos tempos da idade média.”, conclui.

Agora temos mais do que um repúdio à contemporaneidade. De um lado, um professor de filologia, do outro, um compositor autodidata. Ambos se dedicam a representar um mundo que negue este, ou, ao menos, o anule, embora brevemente. Dois mundos ficcionais, e um ponto de convergência: O medieval.

Para esses dois criadores, parece haver uma colagem de valores tradicionais em suas criações, em cuja origem está uma Idade Média fantasiosa a servir de fonte e resgate. Tolkien, ao reproduzir uma imagem etnocêntrica em forma de mitos “pseudo-fundadores” do que seria sua concepção de uma identidade folclórica inglesa, passa a emular lugares comuns de um medievo inglês, mesmo que sob o filtro de seu olhar de homem moderno, criticando tal modernidade.Outros autores, todavia, nos trazem uma visão análoga ao processo de como a cultura nordestina, berço da obra elomariana, bebe das mesmas fontes, como nos traz Francisco Cláudio Alves Marques, em seu artigo “Arquétipos da literatura popular do nordeste brasileiro”:

Por outro lado, dado que a poesia medieval é uma poesia in praesentia, como aquela praticada na praça pública nordestina, o ato de rastrear a história dos textos medievais que inspiraram os poetas e cantadores brasileiros nos aproxima, do ponto de vista da recepção, dos sujeitos que os escutaram na corte e na praça pública medieval, pressupondo, na medida do possível, as perguntas que a obra respondia em seu tempo…”

Ou seja, onde o escritor de “O Senhor dos Anéis” cria uma relação com um passado imaginado mediante pesquisa erudita e licença criativa, Elomar o recebe mediante a absorção da palavra, pela tradição oral nordestina e o transforma em música. “Na caatinga devolve-se à palavra a dignidade perdida nos grandes centros urbanos; uma ideia é pensada, pesada, construída e só então transmitida. É fácil sentir que atrás da palavra há uma ideia; atrás da ideia um sentimento; atrás do sentimento, uma construção mística e mágica. Sua força é medieval, sertaneja; a construção é barroca, o Canto tem raízes ibéricas.” Ernani Maurílio, com essas palavras, também provindas do disco “O Auto da Catingueira”, nos permite afirmar uma vez mais, que o medievalismo sertanejo não é uma coincidência, é uma síntese.

Donzela Tiadora

(Elomar Figueira Mello)

E a donzela Tiadora
quinas asa da aurora
vei à sala do rei
infrentá sete sábios
sete sábios da lei
venceu sete preguntas
e de bôca-de-côro
recebeu cumo prenda
mili dobra de ôro
respondeuqui a noite
discanso do trabai
incobre os malfeitores
e qui do anjericó
beleza dos amores
e qui da vilhilice
vistidura de dores
na eterna mininice
foi-se num poldobai
isso vai muito longe
foi no seclo do pai

O Sertão Profundo permite Reis, testes de coragem e sabedoria, até charadas. E tudo isso “vai muito longe/foi no seclo do pai.” Ou seja, para afastar seus leitores/ouvintes do tempo-espaço em que se encontram, esses dois autores abrem mão do idílio de uma pureza reconquistada. Eles nos trazem os ecos de uma pureza esculpida, adotada, trazida de uma reminiscência. O que importa é nos retirar desse “agora”: A cidade, a repetição, o automatismo. É uma literatura que nos permite abrir mão dos poderes do Olimpo artificial em que nos achamos. É uma música que devolve ao homem a condição de coadjuvante da criação, não de protagonista. Entretanto, que mérito haveria em assim proceder? O próprio professor nos diz, em seu “Árvore e Folha”:

“Por que não deveríamos escapar disso ou condenar o absurdo ‘sombrio e assírio’ das cartolas e o horror morlockiano das fábricas? Eles são condenados até pelos autores daquela forma mais escapista em toda a literatura, as estórias de ficção científica. Esses profetas predizem (e muitos parecem ansiar por) um mundo semelhante a uma grande estação de trem com teto de vidro. Mas deles, via de regra, é muito difícil arrancar o que os homens em tal cidade-mundo vão fazer. Eles podem abandonar a “panóplia vitoriana completa” em favor de trajes largos (com zíperes) mas usarão essa liberdade principalmente, parece, para brincar com brinquedos mecânicos no jogo facilmente entediante de se movimentar em alta velocidade.”(Pg 72, Editora Harper Collins Brasil)

Infelizmente, nós não brincamos hoje apenas de nos movimentar em alta velocidade, mas também de nos comunicar em altíssima velocidade, sem, no entanto, falarmos. A palavra, nas metrópoles, assumiu o caráter dessa liberdade ilusória que os portadores do Um Anel pensam alcançar quando se fazem invisíveis e adentram o mundo dos espectros, antes de se tornarem escravos dos poderes que pensam dominar.

Se nesses dois autores a palavra e o canto retomam sua relação com o sagrado de uma continuidade ancestral, é fácil concluir como nosso dia a dia dinamita nossa herança em códigos estritamente utilitaristas. Códigos que nos dão, sem dúvida, as muitas cores de Saruman, o homem habilidoso, com seu maquinário, domínio e influência, mas não a pureza de Gandalf, o Branco, capaz de guiar os Povos-Livres da Terra-média, ou a de Sertano, protagonista do Romance “Sertanílias”, maestro e exímio espadachim, alter-ego por excelência de seu criador(ou vislumbrador) Elomar Figueira Mello.

Haveria uma saída? Provavelmente. E creio que ela se encontra em se permitir abrir um livro ou os ouvidos perante as obras de certos autores, aqueles que ainda criam em busca de uma espiritualidade em forma de sub-criação, compartilhando entre os seus uma experiência ampla, catártica, ainda que a nos conduzir até momentos de todo individuais.

Bastando nos permitir. Viajando para “lá”:

O rapto de Joana do Tarugo

(Elomar Figueira Mello)

Infrenteifôsso muralhae os ferros dos portais
só pela graçada gentil senhora
filtrando a vida pelos grãosde ampulhetas mortais
d’além de tras os Montes venho
por campos de justashonrando este amor
me expondo à Sanha Sanguináriade côrtes cruéis
infrentei vilões no Algouçoe em Senhores de Biscaia
fidalgos corposde armas brunhidas
não temo escorpiões cruéiscarrascos vosso pai
enfreado à porta do castelo
tenho o meu murzeloligeiro e alazão
que em lidas sangrentasbateu mil mouros infiéis
Ô Senhora dos Sarsais
minh’alma só temeao Rei dos reis
deixa a alcôva vem-me à janela
Ô Senhora dos Sarsais
Só por vosso amor e nada mais
desça da tôrreNaíla donzela
venho d’um reino distante,errante e menestrel
inda esta noitee eu tenho esta donzela
minha espada empenhoa uma deã mais pura das vestais
aviai pois a viagem é longa
e já vim preparado para vos levar
já tarda e quase que o minguanteestá a morrer nos céus
Ô Senhora dos Sarsais
minh ‘alma só teme ao Rei dos reis
deixa a alcôva vem-me à janela
Ô Senhora dos Sarsais
só por vosso amor e nada mais
desça da torre Joana tão bela
Naíla donzela, Joana tão bela

Autor:Marcos Guerra Tântalo
Thain da Toca-RN, nasceu em 7 de outubro de 1985, em Natal-RN. Graduou-se em Artes Plásticas, pela UFRN. Em 2009, fundou a editora K-ótica para lançar histórias em quadrinhos, mais tarde tornando-a numa loja dedicada a publicações do gênero. Lançou títulos como “O Evangelho Segundo o Sangue”, “Lovenomicon” e “Lampião na Terra dos Santos Valentes”, além de ter sido um dos contemplados pelo prêmio do Edital Moacy Cirne de Quadrinhos de 2014. Recebeu a Comenda “Mérito Folclorista Prof Deífilo Gurgel”, concedida pela Câmara Municipal de Natal em 2015. Organiza, no momento, diversos projetos, como o quadrinho “Necronomicon Amarelo”, com Will Silva, um dos vencedores do Prêmio de Quadrinhos Evaldo Oliveira, pela Funcarte, em 2019, além de trabalhar como roteirista e ilustrador.