Tolkien e Elomar: O Mago Britânico e o Menestrel Sertanez

É coisa sabida se apontar a obra do Professor J. R. R. Tolkien como concernente a diversas críticas à modernidade. Ao se averiguar que os grandes objetos mágicos de seu Mundo Secundário, a Terra-média, são rechaçados pela sabedoria ou moral de seus marcantes personagens, a lista de tragédias e perigos que sua literatura apresenta nos traz bem mais que uma lição admonitória: As Silmarils, os Anéis de Poder, os Palantíri, cada um dos objetos mágicos que extrapola as leis naturais do mundo imaginário do célebre filólogo, parecem, mesmo que calcadas “numa boa intenção”, acabar por trazer o mal. E, em última instância, a perda total do próprio livre-arbítrio dos qual tais construtos nos pareciam ser os principais expoentes.

Para o analista junguiano Robert A. Johnson , autor de “He: A chave do entendimento da psicologia masculina”:  “Os primeiros mitos, frequentemente, versam sobre a descoberta do poder que emerge da terra e vai para mãos humanas. Os mais recentes, falam da volta do poder à terra, às mãos de Deus, antes que nos destruamos com ele.”

Ou seja, o fogo de Prometeu, de súbito, começa a nos queimar os dedos. É preciso devolvê-lo ao Olimpo, negá-lo em essência e retornar a humanidade a um estado de pureza pré-prometeica.  Parece ser isso que os mitos mais jovens nos apontam. Teremos usado o fogo dos deuses erradamente? O que saiu errado?

Elomar Figueira Mello, compositor e poeta Bahiano, nunca leu Tolkien, porém, concorda plenamente com essa assertiva. Criado no interior de seu estado, tal como o escritor de “O Hobbit”, Elomar teve uma infância cheia de recortes que culminaram em ecos que ressoam na sua produção criativa. Não lutou em uma guerra mundial, mas viu, dia após dia, o espírito humano prevalecer sob o conflito entre a vida e a morte no Semi-árido Nordestino. Sendo responsável por uma discografia com cerca de
17 discos, além de óperas, antífonas e sinfonias, é graduado em Arquitetura. Mantém a prática do violão autodidata, bem como a composição, que flerta entre o erudito e o popular. Alimentando ambos com uma profunda dedicação ao universo a que cunhou a expressão “Sertanez”, evitando a expressão “Sertanejo”, a fim de se afastar do caráter midiático que a palavra tomou nos últimos anos.

Evitar a mídia, por sinal, é ponto passivo no caráter do músico. Basta usarmos como exemplo a descrição presente no encarte de seu disco “Nas quadradas das águas perdidas”, redigida por Tania Pacheco: “Elomar é uma estranha mistura. ‘Prumodi’ compreendê-lo, é preciso viajar 500 e poucos quilômetros, de Salvador até Vitória da Conquista; embrenhar-se com ele numa estradinha de 102 quilômetros, que se percorre de carro, e quatro horas; e, depois andar, mais quilômetro e meio a pé, atravessando na areia seca os dois braços do (Rio) Gavião, vendo os corpos dos cabritinhos mortos ao sol. Tudo isso faz parte do aprendizado. Tudo isso – apenas isso!
– Explica o homem inquieto, cercado de morte, empenhado em cantar a vida eterna”.

Para melhor compreendermos a que a autora se refere quando cita “vida eterna”, cabe aqui mais um excerto de um disco do artista:

“Na tradição catingueira, como também entre todos os despossuídos, há uma crença de que Deus está mais presente na necessidade e na precisão, por isso seu reencontro mais provável será nas terras quebradas da natureza.”, nos diz o historiador Ernani Maurílio, no encarte do LP “Auto da Catingueira”, um dos álbuns centrais da obra Elomariana.

Logo, se nos é possível responder como regressar àquele estado de unidade que abandonamos aonos apoderardas qualidades divinas que tanto cobiçávamos, surgiria aí uma possibilidade de estabelecer o tão esperado retorno através da natureza? O estado de inocência, perdido pela civilização,estaria mediado em se submeter ao mundo dos sentidos, não em se dominar o mundo dos objetos?

Nessa encruzilhada, no entanto, tal utopia há muito fora perdida. Não são exatamente os “primeiros mitos”, citados acima, aqueles que pregam que o poder emergiu da terra até as mãos do homem? Não é possível de se pedir a toda uma civilização que lance seu anel de poder de volta ao fogo que onde foi feito. Nessedilema em que vivemos, portanto, tão diferente do modo de vida que tanto Elomar quanto Tolkien aspiraram em seus anos de formação, resta-nos o “escape”. E esse primeiro parece aplicá-lo, assim como autor britânico, em direção aoutromundo, onde há uma “suspensão de descrença”, que nos permite dar crédito àquilo que não é:

“Eu comecei a sentir que era muito ‘apertado’ o Sertão físico para conter os personagens, minhas histórias, minhas canções.”, diz ele em entrevista para a autora Simone Guerreiro, no livro “Tramas do Sagrado”. Tão apertado ele sentiu esse Sertão, que inventou mais um, ao qual cunhou o nome “Sertão Profundo”, espécie de Terra-média nordestina que o músico baiano diz não ter criado, mas vislumbrado e divulgado, assim como Tolkien, na sua posição de pretenso tradutor do Livro Vermelho. Nosso menestrel prossegue dizendo:

“Esse (é um) sertão imaginário onde pudessem viver esses meus personagens, e eles correrem soltos. Pra não ficar preso à ordem vigente, política, econômica, social, eu vou pegar um sertão lá longe, que deve ter havido, digamos assim, nos tempos da idade média.”, conclui.

Agora temos mais do que um repúdio à contemporaneidade. De um lado, um professor de filologia, do outro, um compositor autodidata. Ambos se dedicam a representar um mundo que negue este, ou, ao menos, o anule, embora brevemente. Dois mundos ficcionais, e um ponto de convergência: O medieval.

Para esses dois criadores, parece haver uma colagem de valores tradicionais em suas criações, em cuja origem está uma Idade Média fantasiosa a servir de fonte e resgate. Tolkien, ao reproduzir uma imagem etnocêntrica em forma de mitos “pseudo-fundadores” do que seria sua concepção de uma identidade folclórica inglesa, passa a emular lugares comuns de um medievo inglês, mesmo que sob o filtro de seu olhar de homem moderno, criticando tal modernidade.Outros autores, todavia, nos trazem uma visão análoga ao processo de como a cultura nordestina, berço da obra elomariana, bebe das mesmas fontes, como nos traz Francisco Cláudio Alves Marques, em seu artigo “Arquétipos da literatura popular do nordeste brasileiro”:

Por outro lado, dado que a poesia medieval é uma poesia in praesentia, como aquela praticada na praça pública nordestina, o ato de rastrear a história dos textos medievais que inspiraram os poetas e cantadores brasileiros nos aproxima, do ponto de vista da recepção, dos sujeitos que os escutaram na corte e na praça pública medieval, pressupondo, na medida do possível, as perguntas que a obra respondia em seu tempo…”

Ou seja, onde o escritor de “O Senhor dos Anéis” cria uma relação com um passado imaginado mediante pesquisa erudita e licença criativa, Elomar o recebe mediante a absorção da palavra, pela tradição oral nordestina e o transforma em música. “Na caatinga devolve-se à palavra a dignidade perdida nos grandes centros urbanos; uma ideia é pensada, pesada, construída e só então transmitida. É fácil sentir que atrás da palavra há uma ideia; atrás da ideia um sentimento; atrás do sentimento, uma construção mística e mágica. Sua força é medieval, sertaneja; a construção é barroca, o Canto tem raízes ibéricas.” Ernani Maurílio, com essas palavras, também provindas do disco “O Auto da Catingueira”, nos permite afirmar uma vez mais, que o medievalismo sertanejo não é uma coincidência, é uma síntese.

Donzela Tiadora

(Elomar Figueira Mello)

E a donzela Tiadora
quinas asa da aurora
vei à sala do rei
infrentá sete sábios
sete sábios da lei
venceu sete preguntas
e de bôca-de-côro
recebeu cumo prenda
mili dobra de ôro
respondeuqui a noite
discanso do trabai
incobre os malfeitores
e qui do anjericó
beleza dos amores
e qui da vilhilice
vistidura de dores
na eterna mininice
foi-se num poldobai
isso vai muito longe
foi no seclo do pai

O Sertão Profundo permite Reis, testes de coragem e sabedoria, até charadas. E tudo isso “vai muito longe/foi no seclo do pai.” Ou seja, para afastar seus leitores/ouvintes do tempo-espaço em que se encontram, esses dois autores abrem mão do idílio de uma pureza reconquistada. Eles nos trazem os ecos de uma pureza esculpida, adotada, trazida de uma reminiscência. O que importa é nos retirar desse “agora”: A cidade, a repetição, o automatismo. É uma literatura que nos permite abrir mão dos poderes do Olimpo artificial em que nos achamos. É uma música que devolve ao homem a condição de coadjuvante da criação, não de protagonista. Entretanto, que mérito haveria em assim proceder? O próprio professor nos diz, em seu “Árvore e Folha”:

“Por que não deveríamos escapar disso ou condenar o absurdo ‘sombrio e assírio’ das cartolas e o horror morlockiano das fábricas? Eles são condenados até pelos autores daquela forma mais escapista em toda a literatura, as estórias de ficção científica. Esses profetas predizem (e muitos parecem ansiar por) um mundo semelhante a uma grande estação de trem com teto de vidro. Mas deles, via de regra, é muito difícil arrancar o que os homens em tal cidade-mundo vão fazer. Eles podem abandonar a “panóplia vitoriana completa” em favor de trajes largos (com zíperes) mas usarão essa liberdade principalmente, parece, para brincar com brinquedos mecânicos no jogo facilmente entediante de se movimentar em alta velocidade.”(Pg 72, Editora Harper Collins Brasil)

Infelizmente, nós não brincamos hoje apenas de nos movimentar em alta velocidade, mas também de nos comunicar em altíssima velocidade, sem, no entanto, falarmos. A palavra, nas metrópoles, assumiu o caráter dessa liberdade ilusória que os portadores do Um Anel pensam alcançar quando se fazem invisíveis e adentram o mundo dos espectros, antes de se tornarem escravos dos poderes que pensam dominar.

Se nesses dois autores a palavra e o canto retomam sua relação com o sagrado de uma continuidade ancestral, é fácil concluir como nosso dia a dia dinamita nossa herança em códigos estritamente utilitaristas. Códigos que nos dão, sem dúvida, as muitas cores de Saruman, o homem habilidoso, com seu maquinário, domínio e influência, mas não a pureza de Gandalf, o Branco, capaz de guiar os Povos-Livres da Terra-média, ou a de Sertano, protagonista do Romance “Sertanílias”, maestro e exímio espadachim, alter-ego por excelência de seu criador(ou vislumbrador) Elomar Figueira Mello.

Haveria uma saída? Provavelmente. E creio que ela se encontra em se permitir abrir um livro ou os ouvidos perante as obras de certos autores, aqueles que ainda criam em busca de uma espiritualidade em forma de sub-criação, compartilhando entre os seus uma experiência ampla, catártica, ainda que a nos conduzir até momentos de todo individuais.

Bastando nos permitir. Viajando para “lá”:

O rapto de Joana do Tarugo

(Elomar Figueira Mello)

Infrenteifôsso muralhae os ferros dos portais
só pela graçada gentil senhora
filtrando a vida pelos grãosde ampulhetas mortais
d’além de tras os Montes venho
por campos de justashonrando este amor
me expondo à Sanha Sanguináriade côrtes cruéis
infrentei vilões no Algouçoe em Senhores de Biscaia
fidalgos corposde armas brunhidas
não temo escorpiões cruéiscarrascos vosso pai
enfreado à porta do castelo
tenho o meu murzeloligeiro e alazão
que em lidas sangrentasbateu mil mouros infiéis
Ô Senhora dos Sarsais
minh’alma só temeao Rei dos reis
deixa a alcôva vem-me à janela
Ô Senhora dos Sarsais
Só por vosso amor e nada mais
desça da tôrreNaíla donzela
venho d’um reino distante,errante e menestrel
inda esta noitee eu tenho esta donzela
minha espada empenhoa uma deã mais pura das vestais
aviai pois a viagem é longa
e já vim preparado para vos levar
já tarda e quase que o minguanteestá a morrer nos céus
Ô Senhora dos Sarsais
minh ‘alma só teme ao Rei dos reis
deixa a alcôva vem-me à janela
Ô Senhora dos Sarsais
só por vosso amor e nada mais
desça da torre Joana tão bela
Naíla donzela, Joana tão bela

Autor:Marcos Guerra Tântalo
Thain da Toca-RN, nasceu em 7 de outubro de 1985, em Natal-RN. Graduou-se em Artes Plásticas, pela UFRN. Em 2009, fundou a editora K-ótica para lançar histórias em quadrinhos, mais tarde tornando-a numa loja dedicada a publicações do gênero. Lançou títulos como “O Evangelho Segundo o Sangue”, “Lovenomicon” e “Lampião na Terra dos Santos Valentes”, além de ter sido um dos contemplados pelo prêmio do Edital Moacy Cirne de Quadrinhos de 2014. Recebeu a Comenda “Mérito Folclorista Prof Deífilo Gurgel”, concedida pela Câmara Municipal de Natal em 2015. Organiza, no momento, diversos projetos, como o quadrinho “Necronomicon Amarelo”, com Will Silva, um dos vencedores do Prêmio de Quadrinhos Evaldo Oliveira, pela Funcarte, em 2019, além de trabalhar como roteirista e ilustrador.

Poemas

POEMA MOSTRANDO O LADO ÚTIL DE MELKOR

Eu sou o aquele que traz o equilíbrio
Entre o bem e o mal
Sou aquele que modifica as planícies e cria as montanhas
E trago o calor da terra para criar vulcões
Sem mim não existiriam os vapores nem fontes termais


Sem mim a água não evaporaria
E dela viria a chuva
Que lhes alimenta

Sou o responsável  pela criação dos pântanos
E Pela neve quando nem passou pelo pensamento de Ulmo

Eu sou Melkor
Aquele que faz com que suas raças se unam por um inimigo comum
Ao invés de brigarem entre si
Minha existência é o que lhe fazem serem melhores
Se aprimorarem

Autor:Patrick Queiros




A CRIAÇÃO DO MUNDO


Atenção Tolkiendili
Uma história vou contar
É da criação do mundo
Que eu vou lhes falar

No início havia Eru
O único
E no vazio ele habitava

Certa vez em meio a solidão
Com o porder de seu pensamento
ele criou Os Ainur
para lhe fazer companhia

Depois ele criou uma orquestra com os Ainur
E os guiou como uma maestro, dando a cada um deles
Um tema
Assim como as quatro estações de vivaldi
E dessa música surgiu Eä
O mundo em que vivemos

Mas,não não como conhecemos,
Afinal já estamos na 5 era e muito tempo se passou
Desde a criação.

Autor:Patrick Jorge Araújo de Queiros – Salvador-Ba

Psicólogo pela Uniruy Wyden, Thain da Toca-Ba, editor das páginas: Conselho Branco Sociedade Tolkien, Escritor por diversão, leitor avido de livro e mangás, interessado em debater e interpretar a obra de Tolkien.

Depressão pós-parto: O caso de Míriel no Silmarillion

Autor:Patrick Queiros

Introdução
O presente artigo tem como objetivo estabelecer uma correlação entre Tolkien e a psicologia, sob a perspectiva de realizar uma avaliação de diagnostico da personagem Míriel do livro Silmarillion. O presente trabalho não tem o objetivo de fazer um tratamento e sim estabelecer um comparativo, entre real e ficção.

Quem é Míriel?

Artista:Jenny_Dolfen

Míriel era esposa do Rei Finwë, e mãe de Curunfinwë, mas ela o chamava de Fëanor- Espírito de Fogo. Segundo Tolkien, Míriel era chamada de “Sërinde por sua extraordinária competência no tear e no bordado, pois suas mãos eram mais adequadas a delicadeza do que quaisquer outras entre os Noldor.” (TOLKIEN,2011,p.67).

Depressão pós-parto

A depressão pós-parto, é um transtorno mental de alta prevalência que provoca alterações cognitivas, físicas, emocionais e sociais.
Os sintomas de DPP são, irritabilidade, sentimentos de desamparo e desesperança, falta de energia e motivação, desinteresse sexual, alterações alimentares e no sono e incapacidade de lidar com novas situações. Uma mãe com depressão pos-parto pode apresentar também sintomas como cefaléia, dores nas costas, etc (Klaus e col., 2000).

No capítulo VI do livro Silmarillion De Fëanor e a libertação de Melkor, contêm elementos que sugerem ser uma depressão pós-parto, devido à diferença entre o comportamento de Míriel, entes e após o parto, presente no trecho abaixo:

“O amor de Finwë Míriel era imenso e cheio de alegria, pois começara no Reino Abençoado nos Dias de Bem-aventurança. Entretando ao dar a luz a seu filho, Míriel foi consumida em corpo e espírito, e, depois do nascimento da criança, ela ansiava por se livrar do esforço de viver.”(TOLKIEN,2011,p.68).

Diagnostico

Segundo o DSM-5 (Classificação norte-americana de doenças mentais), a depressão pós-parto é um subtipo da depressão maior, ou seja, é uma depressão que acontece num período específico e apresenta sintomas diretamente relacionados ao puerpério.  

Critérios diagnósticos de Transtorno Depressivo Maior, segundo o DSM 5:


“A. Cinco (ou mais) dos seguintes sintomas estiveram presentes durante o mesmo período de duas semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior; pelo menos um dos sintomas é (1) humor deprimido ou (2) perda de interesse ou prazer.
 1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme  indicado por relato subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação feita por outras pessoas (p. ex., parece choroso). (Nota: Em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável.)
2. Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (indicada por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas).
3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., uma alteração de mais de 5% do peso corporal em um mês), ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias. (Nota: Em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de peso esperado.)
4. Insônia ou hipersonia quase todos os dias.
5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outras pessoas, não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento).
6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias.
7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes)quase todos os dias (não meramente auto-recriminação ou culpa por estar doente).
8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas).
9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.
B. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
C. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica. (DSM5, p.161)”

-O critério 1° Humor deprimido a maior parte do dia pode ser percebido quando depois do nascimento de Fëanor, Míriel perdeu a vontade de viver.
– No 9° critério diz respeito a pensamentos recorrentes de morrer, pela ânsia de se livrar do esforço de viver, e quando sua alma não volta ao corpo, podendo-se até discutir se, este caso seria uma tentativa de suicídio, comprovando-se no seguinte trecho: “embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos.”(TOLKIEN,2011,p.68).

-O 4 critério pode ser percebido através da Hipersonia, que é o excesso de sono, demonstrado no seguinte trecho:“Ela foi então para os jardins de Lórien, onde se deitou para dormir. No entanto, embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos.”(TOLKIEN,2011,p.68). No qual não foi relatado se sua alma retorna ao corpo e a mesma volta a acorda, podendo-se supor que não.
-Pressume-se que se Mírian não tem vontade de viver, e massa a maior parte do tempo dormindo, que a mesma cumpre o  2. Tendo uma grande diminuição do interesse nas atividades quase todos os dias.

-O 6 critério de perda de energia quase diariamente, pode ser deduzida quando Finwë comenta: “- Sem dúvida, existe cura em Aman. Aqui toda a exaustão pode encontrar alívio. – Porém, como Míriel continuasse definhando”(TOLKIEN,2011,p.68),  além do período em que a mesa continuava dormindo.

-O critério B é atendido na medida em que isso gera um prejuízo no funcionamento social, na medida em que a mesma, não participa da criação do filho, nem convive com o marido
-Pode-se pressupor que o critério C, não atribuindo a depressão ao uso de substancia ou outra condição médica na medida em que não é mencionada a utilização de nenhum medicamento, seja ele qual for, e pelo fato que é relatado que a mesma foi consumida após o nascimento da criança.

Desta forma, o critério A é confirmado na medida em que os pontos 1,2,4,6,9 foram atendidos. Além disso, os critérios, B e C podem ser confirmados, de maneira a fechar Transtorno Depressivo Maior.

Conseqüências na vida social

Vale salientar que a depressão pós-parto, afeta a interação mãe-filho; promove desgaste principalmente na vida afetiva do casal, tal fato pode ser observado na vida de Míriel; quando isso afeta a vida de sua relação conjugal, pois “Finwë entristeceu-se, então, pois os noldor eram jovens, e ele desejava trazer muitos filhos à bem-aventurança de Aman.”(TOLKIEN,2011,p.68). O tempo afastado da esposa que só dormia, leva-o a casar-se novamente, podendo ser confirmado no trecho: “Finwë tomou como segunda esposa Indis, a Loura. Era ela uma vanya”(TOLKIEN,2011,p.69).

De acordo com Schwengber e Piccinini (2003) na relação mãe-bebê é comum entre os sintomas apresentados, a mãe não apresentar interesse por seu filho. Essa perspectiva dos fatos nos é apresentada através de Finwë que: “estava triste, porque parecia uma infelicidade que a mãe se afastasse e perdesse no, mínimo o início da infância do filho.” [… ]“A partir daí, todo o seu amor ele dedicava ao filho. E Fëanor crescia rapidamente, como se houvesse dentro dele um fogo secreto aceso.” (TOLKIEN,2011,p.68). 


Tratamento Real x Literário
   

No tratamento de mulheres com Depressão pós-parto, espera-se que seja realizado tendo início na maternidade, através de equipes multidisciplinares, com o obstetra, enfermeiras, sendo este trabalho referenciado por profissionais de saúde mental (psicólogo e psiquiatra), para proporcionar a nova mãe o apoio necessário que necessita. Para, além disso, o apoio da família é fundamental durante o processo, no cuidado mãe-bebê.

Pra o tratamento, depois da saída da maternidade, a terapêutica da depressão puerperal baseia-se em métodos semelhantes aos empregados no tratamento de transtornos depressivos em outros períodos da vida, tais como a psicoterapia, farmacologia, caso seja necessário. (ROCHA, 1999).

Já no universo literário de J.RR Tolkien, foi apresentado outro tipo de tratamento realizado em Aman, mais especificamente aos cuidados dos Valar Irmo e Estë:  

“- Sem dúvida, existe cura em Aman. Aqui toda a exaustão pode encontrar alívio. – Porém, como Míriel continuasse definhando, Finwë procurou aconselhar-se com Manwë, e Manwë a entregou aos cuidados de Irmo, em Lórien. […]Ela foi então para os jardins de Lórien, onde se deitou para dormir. No entanto, embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos. As criadas de Estë cuidavam do corpo de Míriel, e ele manteve seu viço, mas ela não voltou. (TOLKIEN,2011,p.68).

Cabe aqui recordar que Irmo, é o Senhor das visões e dos sonhos, e em seu tratamento a coloca para dormir e Estë, a suave curadora dos ferimentos e das fadigas (Tolkien,2011), dessa forma como Míriel não apresentava nenhum ferimento físico, o que Estë poderia fazer por ela, é curá-la da fadiga que ela sentia, no entanto tratando-se de uma doença psicológica os sintomas voltariam a aparecer independente do repouso que a mesma possa ter no sono. Supondo-se que a mesma apresenta-se em um estado de coma induzido, sem previsão de retorno de sua alma ao corpo, nem de recobrar a consciência para que se possa ter início outro modelo de tratamento.



Referências:

Klaus, M. H., Kennel, J. H. & Klaus, P. Vínculo: construindo as bases para um apego seguro e para a independência. Porto Alegre: Artes Medicas, 2000.

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5 / [American Psychiatric Association ; tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento… et AL, 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.

SCHWENGBER, D. D. S.; PICCININI, C. A. O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebê. Estudos de Psicologia, Natal, v. 8, n. 3, p. 403-411, 2003.
ROCHA, F.L. Depressão puerperal: revisão e atualização. J Bras Psiq, v. 48, p. 105-114,1999.

TOLKIEN, J. R. R., O Silmarillion; organizado por Christopher Tolkien. 5° ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011

Autor:Patrick Jorge Araújo de Queiros – Salvador-Ba

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Psicólogo pela Uniruy Wyden, Thain da Toca-Ba, editor das páginas: Conselho Branco Sociedade Tolkien, Imladris Toca-Sp, Toca-Es,Toca-RN. Escritor por diversão, interessado em debater e interpretar a obra de Tolkien.

Eventos realizados em 2019

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Encontro da Toca-Ba Data 17/02/2019

Nesse encontro da TOCA-BA foi realizado um Quiz sobre o universo de Tolkien.
Temas:Senhor dos anéis, hobbit, Silmarillion,Os filhos de Húrin.
O Quiz foi organizado por Patrick Queiros vice-presidente da Toca-Ba

-Adriana Aragão fez a peça gráfica de divulgação

Total de público: 10 pessoas

Dia de Ler Tolkien – Data:24/03/2019

Local: O encontro foi realizado no Coliseu dos jogos, Bairro Pituba, Salvador-Ba

Atividades:
Exposição de livros
Palestrantes:
André Guimarães- As influências de Tolkien para compor o Silmarillion
Frederico Cunha -A mitologia do silmarillion (valar,valier)
Adriana Aragão- Poemas e contos de tolkien pequenos, não publicados no Brasil

Público Total: 12 pessoas

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Lançamento do livro O Hobbit – Data: 03/08/2019

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A TOCA-BA gostaria de agradecer a editora HarperCollins Brasil pela parceria, com uma séries de prêmios: livros, sacolas e marcadores páginas que foram sorteados durante o evento de lançamento do livro O hobbit.

Atividades:
-André Guimarães com sua palestra sobre o livro O hobbit: como ele foi criado e as mensagens os personagens nos passam
Anny Miranda pela palestra sobre os filmes do hobbit e suas curiosidades e diferenças do livro para os filmes.
-Patrick Queiros pelas perguntas do quiz que geraram tanto ânimo como indignação do público, querendo perguntas mais fáceis

Púbico total: 22 pessoas

Clube do livro Toca-Ba – Data 05/10/2019

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Atividade: clube do livro, debate sobre o livro Mestre Gil de Ham
com André Guimarães, Patrick Queiros e Jane.
Quiz: com 16 perguntas sobre o livro, autor: Patrick Queiros 
Público total: 3 pessoas

Eventos realizados em 2018

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Gostaríamos de agradecer:
-Patrick Queiros- responsável por conseguir o espaço da faculdade e equipamento
-Adriana Aragão- Palestrou sobre Tolkien e suas influências no RPG – duração 15min e criou as peças gráficas para o evento
-Leonardo Freitas- Palestrou sobre Batalhas épicas na Terra Média, fazendo uma descrição da batalha dos 5 exércitos em o Hobbit. Duração 15min
-Agnaldo Podesta- Palestrou sobre o Legendário de Tolkien e o Cristianismo- Duração 15 min.
-Martha Marcondes-Brincadeiras/jogos e concurso cosplay organizou um mini competição de mimica com o público.

Música e dança com a confraria artística subgrupo da BCS(Batalha Cênica Salvador) grupo de prática de Swordplay, LARP e estudos Medievais. Eles realizaram uma apresentação musical e de dança, ensinado ao público uma dança medieval.

Concurso literário com com ganhador- Alan Vitor

Total de público: 15 pessoas

Gostaríamos de agradecer a Faculdade Ruy Barbosa que nos cedeu o espaço e a editora Martin Fontes que nos enviou 5 livros para premoções das atividades.

Evento do lançamento do livro A Queda de Gondolin organizado pela editora Hapercollins em parceria com a saraiva, Cinesiageek e Toca-ba.
Atividades:
-Patrick Queiros palestrou sobre o livro A Queda de Gondolin- Duração: 30min
-Sorteio: Duração 5 min
-Palestra sobre a Série da Amazon com: Danilo de Oliveira (Cinesia Geek) e Martha Marcondes Toca-ba, Duração 15min
-Sorteio: Duração 5min
-Debate com o público- 15min

Agradecemos a editora Hapercollins que nos mandaram 5 livros e 61 bolsas e posters que foram distribuídos para o público.
Total de público 65 pessoas


Encontro realizado para os fã de Tolkien conversarem sobre as raças na Terra-Média e tomarem um café.
Agradecemos a Thinai Gonçalves a nossa fotógrafa e a Adriana Aragão pela peça gráfica de divulgação.
Público:12 pessoas

Lançamento do livro Beren e Lúthien Data:10/11/2018

Evento organizado pela ediora Heper Collions em parceria com a Toca-Ba
Palestrantes:
Total de público: 40 pessoas
Agnaldo Podesta
Martha Marcondes

A confraria articita BCS realizou declamação de poesia e cantou duas músicas medievais.

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Os Quatro amores de C.S Lewis e suas representações no universo de Tolkien

Os quatro amores - 9788578601959 - Livros na Amazon Brasil

INTRODUÇÃO

O autor C.S. Lewis, no livro Os Quatro Amores, expressa que o amor pode ser comunicado de quatro maneiras: Afeição, a forma mais básica de amar; Amizade, considerada a mais rara; Eros, o amor apaixonado; e Caridade, o maior e menos egoísta deles. No entanto para este artigo, utilizei como parâmetro os subtipos que compões em quatro amores citados acima, sendo trabalhados no decorrer da obra, portanto os amores utilizados como parâmetro foram: Amor-Dádiva, Amor-Natureza, Amor-Apreciativo e Amor necessidade, não sendo utilizados para análise outros tipos de amores citados, como por exemplo, amor-pátria.

-Amor Dádiva

Ilustrador:Dakkun39

Segundo C.S Lewis no livro os quatro amores, o amor-doação é o que deseja de modo genuíno proporcionar ao outro um conforto, proteção, portanto um exemplo típico do “amor-Dádiva seria aquele que move o homem a trabalhar, planejar e guardar dinheiro para o futuro bem-estar de sua família, que ele morrerá sem ver ou desfrutar” (LEWIS,2017, p.11), através dessa citação pode-se pensar em dois momentos em que no livro Os Filhos de Húrin em que é demonstrado o amor- dádiva, o primeiro acontece quando Húrin Senhor de Dor-lómin é convocado para se juntar a 5° batalha Nirnaeth Arnoediad, despediu-se de sua esposa Morwen e disse:

“— Adeus, Senhora de Dor-lómin; agora cavalgamos com maior esperança que já conhecemos. Vamos acreditar que nesse solstício de inverno o banquete há de ser mais alegre do que em todos os nossos anos até agora e seguindo por uma primavera sem temor!
Então ergueu Túrin no ombro e exclamou para seus homens:— Que o herdeiro da Casa de Hador veja a luz das vossas espadas! — E o sol reluziu em cinquenta lâminas que se ergueram para o alto…” (TOLKIEN,2009,p. 54)

Em tal trecho fica claro o amor doação de Húrin que durante anos cuidou da região de Dor-lómin e de sua família; seu filho Turin e sua esposa Morwen que estava grávida. Quando este, indo para guerra exercendo, portanto seu trabalho e, desejando voltar vitorioso para o banquete, podendo assim ver o nascimento de sua filha, ver e sua família e seu povo ter uma vida sem medo de serem escravizados por Morgoth, se assim saíssem vitoriosos. No entanto, Húrin é capturado e amaldiçoado por Morgoth, e forçado a assistir tudo que acontecia em suas terras, sem poder partilhar de experiências com sua família, comprovando assim que o amor de Húrin por sua esposa e filho é um amor de dádiva.

O Segundo momento da obra em que aparece amor de dádiva acontece quando Morwen sem receber notícias do seu marido Húrin, a medida que o tempo passava, se entristecia por seu filho Túrin, Herdeiro de Dor-Lómin e Ladros, pois percebia que ele acabaria se tornando escravo dos homens lestenses caso continuasse naquela região:

“Então Lembrou-se de sua conversa com Húrin e outra vez seus pensamentos se voltaram para Doriath. Por fim,resolveu mandar Túrin embora em segredo, se pudesse rogar ao rei Thingol que lhe desse refúgio.[…] Mas, o nascimento do bebê se aproximava e o caminho seria duro e perigoso, quanto mais pessoas fossem,menor seriam as chances de escapar.” (TOLKIEN,2009 ,p. 75)

Morwen mãe de Túrin, diante da ameaça de escravidão para seu filho, ela o envia para Doriath, e ao fazê-lo segundo Lewis, Morwen exerce “o amor-Dádiva aspira dar a felicidade,conforto, proteção e, se possível riqueza” (LEWIS,2017, p.32), mesmo sabendo que talvez jamais tornaria a vê-lo, o amor-dádiva pode ser percebido, ao qual os pais fazendo de tudo para que seus filhos tenham um futuro melhor, mesmo que para isso tenham não possam aproveitar do mesmo, nem estar próximos destes.

-Amor da Natureza

“Para algumas pessoas, talvez de forma especial para os ingleses e os russos, aquilo que denominamos  de “amor pela natureza” é um sentimento permanente e sério.” (LEWIS, 2017,P.32) .Tal amor pode ser observado no livro Silmarillion na Valar Yavana, a provedora de frutos:

“Ela ama todas as coisas que crescem sobre a terra e guarda na mente todas as suas incontáveis formas, das árvores semelhantes a torres nas florestas primitivas, ao musgo sobre as pedras, aos seres pequenos e secretos que vivem no solo.”(TOLKIEN, 2011, p.18)

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Autora:Yavanna by Janka Lateckov 


Yavana seria a representação viva do Amor-Natureza pois a mesma é a criadora da natureza na terra-média, e também apresenta uma profunda preocupação pela destruição de suas criações, tanto com as destruições que Melkor realizava como pela vinda dos anões criações de Aulë, o mesmo se aplica aos Filhos de Ilúvatar. (TOLKIEN, 2011)







Outro ser que demonstra o amor-natureza, é o Maiar Radagast, o quarto Instari, enviado pelos Valar. Segundo o livro Contos Inacabados:

[…]Radagast o quarto apaixonou-se pelos muitos animais e aves que viviam na terra-média, e abandonou os elfos e os homens para passar seus dias entre as criaturas selvagens. Assim obteve seu nome (que é do idioma de númenor, e significa, dizem, “o que cuida dos animais”. (TOLKIEN, 2009, p. 428)

Nesse sentido Radagast representa o que C.S Lewis descreve os amantes da natureza que estão atrás dela em busca de representar a beleza em uma quadro, buscar uma teoria, uma explicação de algo na natureza, não encontrará nada mais as inspirações que o indivíduo estava tendido a perceber. Lewis fala que:

“as nuances” e os  “espíritos” da natureza eles não apontarão, nenhuma moral. Exuberância avassaladora, majestade intolerável e desolação sombria são arremessadas em sua direção. Faa disso o que puder,se puder fazê-lo. O único imperativo que a natureza pronúncia é “Veja. Ouça. Envolva-se. : “Olhe. Ouça. Atenda.” (LEWIS,2017,p.35 )

Portanto Radagast enquanto Maiar de Yavana estava voltado para sentir e observar a natureza, tanto é que o mesmo abandona sua missão para passar os dias entre os animais e conviver com eles, sem procurar moldá-los e sim, como Lewis fala de olhar e ouvi-los e acredito eu que de algum modo Radagast atenda de a natureza que ele encontrou.

-Amor apreciativo

“O amor apreciativo contempla e prende a respiração, fica em silêncio e se rejubila de que tal maravilha possa existir, mesmo que não seja para ele; não ficará inteiramente deprimido se a perder, pois prefere isso a jamais tê-la visto.”(LEWIS,2017, p.16). O amor apreciativo pode ser representado na obra de Tolkien, através do casal Námo e Vairë, sendo estes descritos no segundo capítulo de Quenta Silmarillion. O valar Námo é um dos irmãos fënturi, Senhores dos espíritos, mora em Mandos e é o guardião da casa dos mortos, ele pode ser considerado uma das representações do amor apreciativo, pois:

“Nunca se esquece de nada e conhece todas as coisas que estão por vir, à exceção daquelas que ainda se encontram no Ábitrio de Ilúvatar. Ele é o oráculo dos Valar; mas pronuncia seus presságios e suas sentenças apenas em obediência a Manwë.” (TOLKIEN, 2011, p.19).  

A outra representação do amor apreciativo é a Valier Vairë, a tecelã, esposa de Námo que também reside em Mandos a Oeste de Valinor, ela:“ tece em suas telas, repletas de histórias, todas as coisas que um dia existiram no Tempo; e as moradas de Mandos que sempre se ampliam com o passar das eras estão revestidas dessas telas.”(TOLKIEN, 2011, p.19).

Tanto Námo, quanto Vairë são como deuses de menor poder, se comparado a Eru o único, e na Terra-média, possuem o papel de Deuses de Amor apreciativo, ambos contribuíram com a música para criação de Eä e continuam exercendo seus respectivos papéis, no qual Lewis coloca que o amor apreciativo, é como o criador que observa o livre arbítrio de suas criações, sem interferir, o que pode ser percebido que Námo mesmo sabendo enquanto oráculo o que virá a acontecer, não interfere. Assim também Vanä enquanto uma tecelã/historiadora que sabe de todas as coisas que um dia existiram no Tempo, não interfere para alterar a história. 

Amor Necessidade

De acordo com Lewis:

nosso amor-Necessidade, como viu  Platão, é “filho da pobreza”. Em nossa conscientização ,é o reflexo exato da própria real natureza. Nascemos desamparados. Logo que estamos totalmente consciente descobrimos a solidão. Precisamos dos outros física, emocional e intelectualmente[…]”(LEWIS p.12). 

Eärendil the Mariner by Jenny Dolfen

O amor necessidade pode ser percebido na obra de Tolkien através da figura do meio-elfo Eärendil, que após a fuga da cidade de Gondolin, se tornou senhor do povo que habitava nas Fozes do Sirion e tomou como esposa Elwing que possuía uma das Silmarills, o que despertou o interesse e gerou o ataque dos filhos de Fëanor (Maedhros e Maglor), aos remanescentes de Gondolin(TOLKIEN, 2011), para, além disso, os remanescentes de Gondolin, ainda eram procurados por Melkor,dessa maneira Eärendil passa por diversas atribulações que demonstram sua pobreza, fazendo o mesmo procurar chegar a Valinor incansavelmente, tendo necessidade de conhecer algo maior, o que pode ser comprovado no trecho abaixo do livro Silmarillion:

“[…]E Eärendil entrou em Valinor, foi os palácios de Valimar e nunca mais pôs os pés nas terras do homens. Então os Valar se reuniam em Conselho e convocaram Ulmo das profundezas do mar. E Eäreandil se apresentou diante deles e cumpriu sua missão em nome das duas famílias. Perdão pediu ele para os Noldor e compaixão por seu enorme sofrimento; pediu também piedade para homens e elfos e auxílio em sua necessidade.E sua súplica foi acolhida.” (TOLKIEN, 2011, p.317)

Segundo Lewis , o amor por Deus está em todos os seres e com freqüência é representado através do amor-necessidade, como por exemplo quando pedimos perdão de nossos pecados ou apoio nas dificuldades da vida(LEWIS,2017). Na obra de Tolkien os Valar são os poderes do mundo, participando de sua criação junto com Eru, de tal modo podem ser considerado Deuses, fazendo-se um paralelo com o que Lewis fala, quando Earendil pede perdão e compaixão  pelos homens e elfos que habitam na terra-média.

Referência:

LEWIS, C.S. Os quatro amores, 1°ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

TOLKIEN, J.R.R. Contos inacabados:de númenor e da terra média, 2° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009

TOLKIEN, J. R. R., O Silmarillion; organizado por Christopher Tolkien. 5° ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

TOLKIEN, J.R.R. Os Filhos de Húrin, 1° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

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Autor: Patrick Queiros
Patrick Jorge Araújo de Queiros – Salvador-Ba


Thain da Toca-Ba, editor das páginas: Conselho Branco Sociedade Tolkien, Imladris Toca-Sp, Toca-Es. Escritor por diversão, interessado em debater e interpretar a obra de Tolkien.