Depressão pós-parto: O caso de Míriel no Silmarillion

Autor:Patrick Queiros

Introdução
O presente artigo tem como objetivo estabelecer uma correlação entre Tolkien e a psicologia, sob a perspectiva de realizar uma avaliação de diagnostico da personagem Míriel do livro Silmarillion. O presente trabalho não tem o objetivo de fazer um tratamento e sim estabelecer um comparativo, entre real e ficção.

Quem é Míriel?

Artista:Jenny_Dolfen

Míriel era esposa do Rei Finwë, e mãe de Curunfinwë, mas ela o chamava de Fëanor- Espírito de Fogo. Segundo Tolkien, Míriel era chamada de “Sërinde por sua extraordinária competência no tear e no bordado, pois suas mãos eram mais adequadas a delicadeza do que quaisquer outras entre os Noldor.” (TOLKIEN,2011,p.67).

Depressão pós-parto

A depressão pós-parto, é um transtorno mental de alta prevalência que provoca alterações cognitivas, físicas, emocionais e sociais.
Os sintomas de DPP são, irritabilidade, sentimentos de desamparo e desesperança, falta de energia e motivação, desinteresse sexual, alterações alimentares e no sono e incapacidade de lidar com novas situações. Uma mãe com depressão pos-parto pode apresentar também sintomas como cefaléia, dores nas costas, etc (Klaus e col., 2000).

No capítulo VI do livro Silmarillion De Fëanor e a libertação de Melkor, contêm elementos que sugerem ser uma depressão pós-parto, devido à diferença entre o comportamento de Míriel, entes e após o parto, presente no trecho abaixo:

“O amor de Finwë Míriel era imenso e cheio de alegria, pois começara no Reino Abençoado nos Dias de Bem-aventurança. Entretando ao dar a luz a seu filho, Míriel foi consumida em corpo e espírito, e, depois do nascimento da criança, ela ansiava por se livrar do esforço de viver.”(TOLKIEN,2011,p.68).

Diagnostico

Segundo o DSM-5 (Classificação norte-americana de doenças mentais), a depressão pós-parto é um subtipo da depressão maior, ou seja, é uma depressão que acontece num período específico e apresenta sintomas diretamente relacionados ao puerpério.  

Critérios diagnósticos de Transtorno Depressivo Maior, segundo o DSM 5:


“A. Cinco (ou mais) dos seguintes sintomas estiveram presentes durante o mesmo período de duas semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior; pelo menos um dos sintomas é (1) humor deprimido ou (2) perda de interesse ou prazer.
 1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme  indicado por relato subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação feita por outras pessoas (p. ex., parece choroso). (Nota: Em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável.)
2. Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (indicada por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas).
3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., uma alteração de mais de 5% do peso corporal em um mês), ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias. (Nota: Em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de peso esperado.)
4. Insônia ou hipersonia quase todos os dias.
5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outras pessoas, não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento).
6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias.
7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes)quase todos os dias (não meramente auto-recriminação ou culpa por estar doente).
8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas).
9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.
B. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
C. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica. (DSM5, p.161)”

-O critério 1° Humor deprimido a maior parte do dia pode ser percebido quando depois do nascimento de Fëanor, Míriel perdeu a vontade de viver.
– No 9° critério diz respeito a pensamentos recorrentes de morrer, pela ânsia de se livrar do esforço de viver, e quando sua alma não volta ao corpo, podendo-se até discutir se, este caso seria uma tentativa de suicídio, comprovando-se no seguinte trecho: “embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos.”(TOLKIEN,2011,p.68).

-O 4 critério pode ser percebido através da Hipersonia, que é o excesso de sono, demonstrado no seguinte trecho:“Ela foi então para os jardins de Lórien, onde se deitou para dormir. No entanto, embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos.”(TOLKIEN,2011,p.68). No qual não foi relatado se sua alma retorna ao corpo e a mesma volta a acorda, podendo-se supor que não.
-Pressume-se que se Mírian não tem vontade de viver, e massa a maior parte do tempo dormindo, que a mesma cumpre o  2. Tendo uma grande diminuição do interesse nas atividades quase todos os dias.

-O 6 critério de perda de energia quase diariamente, pode ser deduzida quando Finwë comenta: “- Sem dúvida, existe cura em Aman. Aqui toda a exaustão pode encontrar alívio. – Porém, como Míriel continuasse definhando”(TOLKIEN,2011,p.68),  além do período em que a mesa continuava dormindo.

-O critério B é atendido na medida em que isso gera um prejuízo no funcionamento social, na medida em que a mesma, não participa da criação do filho, nem convive com o marido
-Pode-se pressupor que o critério C, não atribuindo a depressão ao uso de substancia ou outra condição médica na medida em que não é mencionada a utilização de nenhum medicamento, seja ele qual for, e pelo fato que é relatado que a mesma foi consumida após o nascimento da criança.

Desta forma, o critério A é confirmado na medida em que os pontos 1,2,4,6,9 foram atendidos. Além disso, os critérios, B e C podem ser confirmados, de maneira a fechar Transtorno Depressivo Maior.

Conseqüências na vida social

Vale salientar que a depressão pós-parto, afeta a interação mãe-filho; promove desgaste principalmente na vida afetiva do casal, tal fato pode ser observado na vida de Míriel; quando isso afeta a vida de sua relação conjugal, pois “Finwë entristeceu-se, então, pois os noldor eram jovens, e ele desejava trazer muitos filhos à bem-aventurança de Aman.”(TOLKIEN,2011,p.68). O tempo afastado da esposa que só dormia, leva-o a casar-se novamente, podendo ser confirmado no trecho: “Finwë tomou como segunda esposa Indis, a Loura. Era ela uma vanya”(TOLKIEN,2011,p.69).

De acordo com Schwengber e Piccinini (2003) na relação mãe-bebê é comum entre os sintomas apresentados, a mãe não apresentar interesse por seu filho. Essa perspectiva dos fatos nos é apresentada através de Finwë que: “estava triste, porque parecia uma infelicidade que a mãe se afastasse e perdesse no, mínimo o início da infância do filho.” [… ]“A partir daí, todo o seu amor ele dedicava ao filho. E Fëanor crescia rapidamente, como se houvesse dentro dele um fogo secreto aceso.” (TOLKIEN,2011,p.68). 


Tratamento Real x Literário
   

No tratamento de mulheres com Depressão pós-parto, espera-se que seja realizado tendo início na maternidade, através de equipes multidisciplinares, com o obstetra, enfermeiras, sendo este trabalho referenciado por profissionais de saúde mental (psicólogo e psiquiatra), para proporcionar a nova mãe o apoio necessário que necessita. Para, além disso, o apoio da família é fundamental durante o processo, no cuidado mãe-bebê.

Pra o tratamento, depois da saída da maternidade, a terapêutica da depressão puerperal baseia-se em métodos semelhantes aos empregados no tratamento de transtornos depressivos em outros períodos da vida, tais como a psicoterapia, farmacologia, caso seja necessário. (ROCHA, 1999).

Já no universo literário de J.RR Tolkien, foi apresentado outro tipo de tratamento realizado em Aman, mais especificamente aos cuidados dos Valar Irmo e Estë:  

“- Sem dúvida, existe cura em Aman. Aqui toda a exaustão pode encontrar alívio. – Porém, como Míriel continuasse definhando, Finwë procurou aconselhar-se com Manwë, e Manwë a entregou aos cuidados de Irmo, em Lórien. […]Ela foi então para os jardins de Lórien, onde se deitou para dormir. No entanto, embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos. As criadas de Estë cuidavam do corpo de Míriel, e ele manteve seu viço, mas ela não voltou. (TOLKIEN,2011,p.68).

Cabe aqui recordar que Irmo, é o Senhor das visões e dos sonhos, e em seu tratamento a coloca para dormir e Estë, a suave curadora dos ferimentos e das fadigas (Tolkien,2011), dessa forma como Míriel não apresentava nenhum ferimento físico, o que Estë poderia fazer por ela, é curá-la da fadiga que ela sentia, no entanto tratando-se de uma doença psicológica os sintomas voltariam a aparecer independente do repouso que a mesma possa ter no sono. Supondo-se que a mesma apresenta-se em um estado de coma induzido, sem previsão de retorno de sua alma ao corpo, nem de recobrar a consciência para que se possa ter início outro modelo de tratamento.



Referências:

Klaus, M. H., Kennel, J. H. & Klaus, P. Vínculo: construindo as bases para um apego seguro e para a independência. Porto Alegre: Artes Medicas, 2000.

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5 / [American Psychiatric Association ; tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento… et AL, 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.

SCHWENGBER, D. D. S.; PICCININI, C. A. O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebê. Estudos de Psicologia, Natal, v. 8, n. 3, p. 403-411, 2003.
ROCHA, F.L. Depressão puerperal: revisão e atualização. J Bras Psiq, v. 48, p. 105-114,1999.

TOLKIEN, J. R. R., O Silmarillion; organizado por Christopher Tolkien. 5° ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011

Autor:Patrick Jorge Araújo de Queiros – Salvador-Ba

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Psicólogo pela Uniruy Wyden, Thain da Toca-Ba, editor das páginas: Conselho Branco Sociedade Tolkien, Imladris Toca-Sp, Toca-Es,Toca-RN. Escritor por diversão, interessado em debater e interpretar a obra de Tolkien.

Eventos realizados em 2019

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Encontro da Toca-Ba Data 17/02/2019

Nesse encontro da TOCA-BA foi realizado um Quiz sobre o universo de Tolkien.
Temas:Senhor dos anéis, hobbit, Silmarillion,Os filhos de Húrin.
O Quiz foi organizado por Patrick Queiros vice-presidente da Toca-Ba

-Adriana Aragão fez a peça gráfica de divulgação

Total de público: 10 pessoas

Dia de Ler Tolkien – Data:24/03/2019

Local: O encontro foi realizado no Coliseu dos jogos, Bairro Pituba, Salvador-Ba

Atividades:
Exposição de livros
Palestrantes:
André Guimarães- As influências de Tolkien para compor o Silmarillion
Frederico Cunha -A mitologia do silmarillion (valar,valier)
Adriana Aragão- Poemas e contos de tolkien pequenos, não publicados no Brasil

Público Total: 12 pessoas

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Lançamento do livro O Hobbit – Data: 03/08/2019

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A TOCA-BA gostaria de agradecer a editora HarperCollins Brasil pela parceria, com uma séries de prêmios: livros, sacolas e marcadores páginas que foram sorteados durante o evento de lançamento do livro O hobbit.

Atividades:
-André Guimarães com sua palestra sobre o livro O hobbit: como ele foi criado e as mensagens os personagens nos passam
Anny Miranda pela palestra sobre os filmes do hobbit e suas curiosidades e diferenças do livro para os filmes.
-Patrick Queiros pelas perguntas do quiz que geraram tanto ânimo como indignação do público, querendo perguntas mais fáceis

Púbico total: 22 pessoas

Clube do livro Toca-Ba – Data 05/10/2019

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Atividade: clube do livro, debate sobre o livro Mestre Gil de Ham
com André Guimarães, Patrick Queiros e Jane.
Quiz: com 16 perguntas sobre o livro, autor: Patrick Queiros 
Público total: 3 pessoas

Eventos realizados em 2018

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Gostaríamos de agradecer:
-Patrick Queiros- responsável por conseguir o espaço da faculdade e equipamento
-Adriana Aragão- Palestrou sobre Tolkien e suas influências no RPG – duração 15min e criou as peças gráficas para o evento
-Leonardo Freitas- Palestrou sobre Batalhas épicas na Terra Média, fazendo uma descrição da batalha dos 5 exércitos em o Hobbit. Duração 15min
-Agnaldo Podesta- Palestrou sobre o Legendário de Tolkien e o Cristianismo- Duração 15 min.
-Martha Marcondes-Brincadeiras/jogos e concurso cosplay organizou um mini competição de mimica com o público.

Música e dança com a confraria artística subgrupo da BCS(Batalha Cênica Salvador) grupo de prática de Swordplay, LARP e estudos Medievais. Eles realizaram uma apresentação musical e de dança, ensinado ao público uma dança medieval.

Concurso literário com com ganhador- Alan Vitor

Total de público: 15 pessoas

Gostaríamos de agradecer a Faculdade Ruy Barbosa que nos cedeu o espaço e a editora Martin Fontes que nos enviou 5 livros para premoções das atividades.

Evento do lançamento do livro A Queda de Gondolin organizado pela editora Hapercollins em parceria com a saraiva, Cinesiageek e Toca-ba.
Atividades:
-Patrick Queiros palestrou sobre o livro A Queda de Gondolin- Duração: 30min
-Sorteio: Duração 5 min
-Palestra sobre a Série da Amazon com: Danilo de Oliveira (Cinesia Geek) e Martha Marcondes Toca-ba, Duração 15min
-Sorteio: Duração 5min
-Debate com o público- 15min

Agradecemos a editora Hapercollins que nos mandaram 5 livros e 61 bolsas e posters que foram distribuídos para o público.
Total de público 65 pessoas


Encontro realizado para os fã de Tolkien conversarem sobre as raças na Terra-Média e tomarem um café.
Agradecemos a Thinai Gonçalves a nossa fotógrafa e a Adriana Aragão pela peça gráfica de divulgação.
Público:12 pessoas

Lançamento do livro Beren e Lúthien Data:10/11/2018

Evento organizado pela ediora Heper Collions em parceria com a Toca-Ba
Palestrantes:
Total de público: 40 pessoas
Agnaldo Podesta
Martha Marcondes

A confraria articita BCS realizou declamação de poesia e cantou duas músicas medievais.

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Os Quatro amores de C.S Lewis e suas representações no universo de Tolkien

Os quatro amores - 9788578601959 - Livros na Amazon Brasil

INTRODUÇÃO

O autor C.S. Lewis, no livro Os Quatro Amores, expressa que o amor pode ser comunicado de quatro maneiras: Afeição, a forma mais básica de amar; Amizade, considerada a mais rara; Eros, o amor apaixonado; e Caridade, o maior e menos egoísta deles. No entanto para este artigo, utilizei como parâmetro os subtipos que compões em quatro amores citados acima, sendo trabalhados no decorrer da obra, portanto os amores utilizados como parâmetro foram: Amor-Dádiva, Amor-Natureza, Amor-Apreciativo e Amor necessidade, não sendo utilizados para análise outros tipos de amores citados, como por exemplo, amor-pátria.

-Amor Dádiva

Ilustrador:Dakkun39

Segundo C.S Lewis no livro os quatro amores, o amor-doação é o que deseja de modo genuíno proporcionar ao outro um conforto, proteção, portanto um exemplo típico do “amor-Dádiva seria aquele que move o homem a trabalhar, planejar e guardar dinheiro para o futuro bem-estar de sua família, que ele morrerá sem ver ou desfrutar” (LEWIS,2017, p.11), através dessa citação pode-se pensar em dois momentos em que no livro Os Filhos de Húrin em que é demonstrado o amor- dádiva, o primeiro acontece quando Húrin Senhor de Dor-lómin é convocado para se juntar a 5° batalha Nirnaeth Arnoediad, despediu-se de sua esposa Morwen e disse:

“— Adeus, Senhora de Dor-lómin; agora cavalgamos com maior esperança que já conhecemos. Vamos acreditar que nesse solstício de inverno o banquete há de ser mais alegre do que em todos os nossos anos até agora e seguindo por uma primavera sem temor!
Então ergueu Túrin no ombro e exclamou para seus homens:— Que o herdeiro da Casa de Hador veja a luz das vossas espadas! — E o sol reluziu em cinquenta lâminas que se ergueram para o alto…” (TOLKIEN,2009,p. 54)

Em tal trecho fica claro o amor doação de Húrin que durante anos cuidou da região de Dor-lómin e de sua família; seu filho Turin e sua esposa Morwen que estava grávida. Quando este, indo para guerra exercendo, portanto seu trabalho e, desejando voltar vitorioso para o banquete, podendo assim ver o nascimento de sua filha, ver e sua família e seu povo ter uma vida sem medo de serem escravizados por Morgoth, se assim saíssem vitoriosos. No entanto, Húrin é capturado e amaldiçoado por Morgoth, e forçado a assistir tudo que acontecia em suas terras, sem poder partilhar de experiências com sua família, comprovando assim que o amor de Húrin por sua esposa e filho é um amor de dádiva.

O Segundo momento da obra em que aparece amor de dádiva acontece quando Morwen sem receber notícias do seu marido Húrin, a medida que o tempo passava, se entristecia por seu filho Túrin, Herdeiro de Dor-Lómin e Ladros, pois percebia que ele acabaria se tornando escravo dos homens lestenses caso continuasse naquela região:

“Então Lembrou-se de sua conversa com Húrin e outra vez seus pensamentos se voltaram para Doriath. Por fim,resolveu mandar Túrin embora em segredo, se pudesse rogar ao rei Thingol que lhe desse refúgio.[…] Mas, o nascimento do bebê se aproximava e o caminho seria duro e perigoso, quanto mais pessoas fossem,menor seriam as chances de escapar.” (TOLKIEN,2009 ,p. 75)

Morwen mãe de Túrin, diante da ameaça de escravidão para seu filho, ela o envia para Doriath, e ao fazê-lo segundo Lewis, Morwen exerce “o amor-Dádiva aspira dar a felicidade,conforto, proteção e, se possível riqueza” (LEWIS,2017, p.32), mesmo sabendo que talvez jamais tornaria a vê-lo, o amor-dádiva pode ser percebido, ao qual os pais fazendo de tudo para que seus filhos tenham um futuro melhor, mesmo que para isso tenham não possam aproveitar do mesmo, nem estar próximos destes.

-Amor da Natureza

“Para algumas pessoas, talvez de forma especial para os ingleses e os russos, aquilo que denominamos  de “amor pela natureza” é um sentimento permanente e sério.” (LEWIS, 2017,P.32) .Tal amor pode ser observado no livro Silmarillion na Valar Yavana, a provedora de frutos:

“Ela ama todas as coisas que crescem sobre a terra e guarda na mente todas as suas incontáveis formas, das árvores semelhantes a torres nas florestas primitivas, ao musgo sobre as pedras, aos seres pequenos e secretos que vivem no solo.”(TOLKIEN, 2011, p.18)

Council of Elrond » LotR News & Information » Realm of Yavanna ...
Autora:Yavanna by Janka Lateckov 


Yavana seria a representação viva do Amor-Natureza pois a mesma é a criadora da natureza na terra-média, e também apresenta uma profunda preocupação pela destruição de suas criações, tanto com as destruições que Melkor realizava como pela vinda dos anões criações de Aulë, o mesmo se aplica aos Filhos de Ilúvatar. (TOLKIEN, 2011)







Outro ser que demonstra o amor-natureza, é o Maiar Radagast, o quarto Instari, enviado pelos Valar. Segundo o livro Contos Inacabados:

[…]Radagast o quarto apaixonou-se pelos muitos animais e aves que viviam na terra-média, e abandonou os elfos e os homens para passar seus dias entre as criaturas selvagens. Assim obteve seu nome (que é do idioma de númenor, e significa, dizem, “o que cuida dos animais”. (TOLKIEN, 2009, p. 428)

Nesse sentido Radagast representa o que C.S Lewis descreve os amantes da natureza que estão atrás dela em busca de representar a beleza em uma quadro, buscar uma teoria, uma explicação de algo na natureza, não encontrará nada mais as inspirações que o indivíduo estava tendido a perceber. Lewis fala que:

“as nuances” e os  “espíritos” da natureza eles não apontarão, nenhuma moral. Exuberância avassaladora, majestade intolerável e desolação sombria são arremessadas em sua direção. Faa disso o que puder,se puder fazê-lo. O único imperativo que a natureza pronúncia é “Veja. Ouça. Envolva-se. : “Olhe. Ouça. Atenda.” (LEWIS,2017,p.35 )

Portanto Radagast enquanto Maiar de Yavana estava voltado para sentir e observar a natureza, tanto é que o mesmo abandona sua missão para passar os dias entre os animais e conviver com eles, sem procurar moldá-los e sim, como Lewis fala de olhar e ouvi-los e acredito eu que de algum modo Radagast atenda de a natureza que ele encontrou.

-Amor apreciativo

“O amor apreciativo contempla e prende a respiração, fica em silêncio e se rejubila de que tal maravilha possa existir, mesmo que não seja para ele; não ficará inteiramente deprimido se a perder, pois prefere isso a jamais tê-la visto.”(LEWIS,2017, p.16). O amor apreciativo pode ser representado na obra de Tolkien, através do casal Námo e Vairë, sendo estes descritos no segundo capítulo de Quenta Silmarillion. O valar Námo é um dos irmãos fënturi, Senhores dos espíritos, mora em Mandos e é o guardião da casa dos mortos, ele pode ser considerado uma das representações do amor apreciativo, pois:

“Nunca se esquece de nada e conhece todas as coisas que estão por vir, à exceção daquelas que ainda se encontram no Ábitrio de Ilúvatar. Ele é o oráculo dos Valar; mas pronuncia seus presságios e suas sentenças apenas em obediência a Manwë.” (TOLKIEN, 2011, p.19).  

A outra representação do amor apreciativo é a Valier Vairë, a tecelã, esposa de Námo que também reside em Mandos a Oeste de Valinor, ela:“ tece em suas telas, repletas de histórias, todas as coisas que um dia existiram no Tempo; e as moradas de Mandos que sempre se ampliam com o passar das eras estão revestidas dessas telas.”(TOLKIEN, 2011, p.19).

Tanto Námo, quanto Vairë são como deuses de menor poder, se comparado a Eru o único, e na Terra-média, possuem o papel de Deuses de Amor apreciativo, ambos contribuíram com a música para criação de Eä e continuam exercendo seus respectivos papéis, no qual Lewis coloca que o amor apreciativo, é como o criador que observa o livre arbítrio de suas criações, sem interferir, o que pode ser percebido que Námo mesmo sabendo enquanto oráculo o que virá a acontecer, não interfere. Assim também Vanä enquanto uma tecelã/historiadora que sabe de todas as coisas que um dia existiram no Tempo, não interfere para alterar a história. 

Amor Necessidade

De acordo com Lewis:

nosso amor-Necessidade, como viu  Platão, é “filho da pobreza”. Em nossa conscientização ,é o reflexo exato da própria real natureza. Nascemos desamparados. Logo que estamos totalmente consciente descobrimos a solidão. Precisamos dos outros física, emocional e intelectualmente[…]”(LEWIS p.12). 

Eärendil the Mariner by Jenny Dolfen

O amor necessidade pode ser percebido na obra de Tolkien através da figura do meio-elfo Eärendil, que após a fuga da cidade de Gondolin, se tornou senhor do povo que habitava nas Fozes do Sirion e tomou como esposa Elwing que possuía uma das Silmarills, o que despertou o interesse e gerou o ataque dos filhos de Fëanor (Maedhros e Maglor), aos remanescentes de Gondolin(TOLKIEN, 2011), para, além disso, os remanescentes de Gondolin, ainda eram procurados por Melkor,dessa maneira Eärendil passa por diversas atribulações que demonstram sua pobreza, fazendo o mesmo procurar chegar a Valinor incansavelmente, tendo necessidade de conhecer algo maior, o que pode ser comprovado no trecho abaixo do livro Silmarillion:

“[…]E Eärendil entrou em Valinor, foi os palácios de Valimar e nunca mais pôs os pés nas terras do homens. Então os Valar se reuniam em Conselho e convocaram Ulmo das profundezas do mar. E Eäreandil se apresentou diante deles e cumpriu sua missão em nome das duas famílias. Perdão pediu ele para os Noldor e compaixão por seu enorme sofrimento; pediu também piedade para homens e elfos e auxílio em sua necessidade.E sua súplica foi acolhida.” (TOLKIEN, 2011, p.317)

Segundo Lewis , o amor por Deus está em todos os seres e com freqüência é representado através do amor-necessidade, como por exemplo quando pedimos perdão de nossos pecados ou apoio nas dificuldades da vida(LEWIS,2017). Na obra de Tolkien os Valar são os poderes do mundo, participando de sua criação junto com Eru, de tal modo podem ser considerado Deuses, fazendo-se um paralelo com o que Lewis fala, quando Earendil pede perdão e compaixão  pelos homens e elfos que habitam na terra-média.

Referência:

LEWIS, C.S. Os quatro amores, 1°ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

TOLKIEN, J.R.R. Contos inacabados:de númenor e da terra média, 2° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009

TOLKIEN, J. R. R., O Silmarillion; organizado por Christopher Tolkien. 5° ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

TOLKIEN, J.R.R. Os Filhos de Húrin, 1° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

A imagem pode conter: Patrick Queiros, close-up

Autor: Patrick Queiros
Patrick Jorge Araújo de Queiros – Salvador-Ba


Thain da Toca-Ba, editor das páginas: Conselho Branco Sociedade Tolkien, Imladris Toca-Sp, Toca-Es. Escritor por diversão, interessado em debater e interpretar a obra de Tolkien.